FÁBIO MENDES

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Ora, pílulas

Terça-feira, Outubro 28, 2008

Sazonalidade do mundo cão

O cadáver de Isabella Nardoni nem bem esfriou e um novo prato foi servido, de bandeja, para o sedento telespectador brasileiro. O longo seqüestro de Eloá Rodrigues e a sua trágica morte vão ficar por um bom tempo presos na retina do brasileiro, não como exemplo de como a polícia deve ou não proceder, nem como algum tipo de aviso, mas como mais um número de um show bizarro.

E, no meio de um noticiário carregado nas tintas, sobra pra todo mundo. A polícia, incompetente de fato, vem sofrendo ataques desproporcionais, na base do “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Ou alguém acha que, se os policiais tivessem matado o rapaz e salvado as meninas, não seriam crucificados por “executar um rapaz trabalhador, sem antecedentes criminais, que só tava sofrendo por amor”? No meio disso tudo, temos a hipocrisia de uma família que quer indenização milionária e que tem agido como se a jovem tivesse sido torturada por policiais militares. O prato veio servido, e completo. Não falta nem a sobremesa.

Por conta disso, nos detemos no incessante ciclo do circo de horrores travestido de notícias. Antes de Eloá, tivemos Isabella e, antes dela, os Richthofen. E daí penso: quantos casos semelhantes como esse não ocorrem por aí e são relegados à poeira do esquecimento?

De início, atribuímos o exagerado interesse no caso de Suzane von Richthofen e dos irmãos Cravinhos ao fato de a jovem ser de família abastada, o que não apenas aguça o interesse do brasileiro médio como serve para aumentar o alarde da Imprensa: “Oh, as classes A e B vivem uma tragédia” etc. Na história de Isabella, uma pequena suspeita começou a surgir. Casos de crianças mortas por pais e padrastos ocorrem com uma freqüência assustadora. Porque nunca se deu espaço a esse assunto?

Com o ocorrido em Santo André, tudo parece se explicar. Com exceção das 100 horas de seqüestro, o caso foi muito parecido com dezenas de outros. Foi trágico, como foram tantas outras ocorrências semelhantes de amantes ofendidos que resolvem fazer “justiça com as próprias mãos”, e que foram fadados ao esquecimento.

Foi se o tempo em que uma ocorrência criminal só tinha relevância se atingisse alguém importante, famoso ou muito rico. Hoje, o que interessa é manter sempre o ritmo. Não deixar a peteca cair e segurar um caso o máximo possível. Quando o crime esfriar, é imperativo que, em menos de três meses, outro caso venha à baila.

Essa regularidade por parte da cobertura policial tem causado engulhos. É impossível que, entre o Caso Richthofen e o Caso Isabella, e entre este e a Tragédia de Santo André, não tenha surgido algum crime policial semelhante a este. O que nos faz concluir que o espaço dado não segue nenhum critério de relevância, e sim de uma horrenda necessidade de manter o sangue no noticiário, seja no jornal, seja na TV ou na internet.

Vamos aguardar agora a história de Eloá esfriar e contar os fatídicos três meses até que um novo crime cause revolta na população – e motive uma impressionante caravana de vagabundos ao velório de uma completa desconhecida.

Escrito por FÁBIO MENDES em 4:54 PM. Comments:

Quinta-feira, Outubro 09, 2008

AS LUZES QUE BRILHAM NO TEATRO

Assistir a “São de Cera as Luzes da Cidade” é muito mais que simplesmente colocar a bunda em uma cadeira e ficar em silêncio assistindo a uma peça de teatro. É ficar preso à poltrona, com os pensamentos e as emoções soltas da primeira à última cena. É não conseguir falar porque a garganta secou para poder umedecer os olhos. É assistir a uma obra de arte em estado puro, porque traz tudo o que uma genuína manifestação artística precisa trazer.
Não há como ficar indiferente à montanha de sensações movida pelo texto direto e pela direção precisa de Paulo F. Um turbilhão de idéias passa pela mente durante a peça, uma emocionante história sobre amores, relacionamentos, sonhos e frustrações.



"São de Cera as Luzes da Cidade” é a história de Camila (Marina Franco) e Arthur (Paulinho Faria), casal que faz de suas escolhas profissionais a ponta-de-lança de suas idas e vindas entre o amor, a alegria e a desilusão. Ela larga o emprego burocrático para investir em sua carreira musical, enquanto ele busca se firmar em seu trabalho como cartunista. Entre um dedilhar de violão e um rabisco, surgem as luzes sobre as mesas e os palcos, que os unem e os separam.



A peça é obra do talento e da coragem do jovem escritor e dramaturgo Paulo Ferro Júnior, ou simplesmente Paulo F. Ao contrário de muitos que apenas choram as dificuldades que surgem no caminho, ele botou mãos à obra e, obstinado, nadou contra a maré até emplacar seu grande trabalho no teatro Ruth Escobar. Enfrentou dificuldades, passou grandes perrengues e lutou contra o árido cenário teatral brasileiro, que vive de peças pseudo-engraçadas movidas pelo nome de algum ator global. Uma luta feroz.



Luta esta que se tornou uma peça de primeiríssima qualidade. A bacaníssima trilha sonora recheada do bom e velho Nei Lisboa e a iluminação impecável criam o clima perfeito para as ótimas interpretações de Marina e Paulinho. Os diálogos são certeiros, matadores. Daqueles que nos deixam em suspenso, esquecidos de tudo. O fim da peça é como o acender de uma luz, que nos tira de nossos pensamentos e nos traz de volta para a vida real.

Tudo é extremamente bem feito e sacado. Alguns diriam que é feito com amor, mas eu diria que é feito com tesão. É nítida a garra e a vontade desta turma que rala para mostrar que há vida inteligente no teatro e que o talento está aí, esperando o momento de aparecer e emocionar.

Escrito por FÁBIO MENDES em 11:03 PM. Comments: